Tatewaki Nio


Doce Lar

A cidade desviada. Entre o ontem e o que está por vir. A cidade futurista e abandonada enfrenta o seu passado que hoje despenca nas calçadas, embaixo dos viadutos, nos bancos das praças; nas vielas escurecidas por onde, dali mesmo, seremos capaz de enxergar o novo arranha-céu que se ergue - cinco vagas na garagem /quatro suítes/ nenhum olhar para o outro que lá embaixo despenca sobre o meio fio na maior cidade do país que voltou, tristemente, a ser outra vez o país do futebol? Quem vê o quê?

Tatewaki Nio vê uma parte da metrópole despedaçada e outra, embalada a vácuo e que se ergue. O passado em ruína. O futuro antropofágico do capitalismo que aborta Macunaíma, impresso e distribuído em panfletos nas portas das padarias da cidade por criaturas uniformizadas: cinco vagas na garagem; quatro suítes; varanda com churrasqueira, TV de plasma no teto. Os outros miseráveis estão nas ruas. Ou por dentro do arcabouço escurecido, esqueleto mofado do que foi um passado urbano hoje despencando magnífico, como um cenário de ópera. A fotografia como chapa de um pulmão. Xis na poética endurecida de uma urbis que ultrapassa fronteiras e que vai direto ao câncer físico, mental e geográfico que é o abandono nas grandes metrópoles.

A construção da grande metrópole. O desabamento nas grandes metrópoles como elas verdadeiramente estão: doentes, empobrecidas, mal amadas. Repletas de “amor” verticalizado. Plano piloto para os que, nas calçadas horizontais, enxergam a geometria do concreto beirar o azul. Não temos saída. A busca desesperada pela beleza enfadonha que vem do caos. Navalha na carne dos que para cá vieram e hoje (sem ar nos pulmões) retornam para o seu lugar de origem. Carne é sangue. Dor e prazer. Material de consumo. Doce lar.

Diógenes Moura
(O texto do escritor/curador de fotografia foi oferecido para a exposição realizada no X Bienal de Arquitetura de São Paulo)